sábado, 6 de março de 2021

Leonardo e Meredite (Parte 22) *Final

     Leonardo e Meredite (Parte 22 *Final*)

 

     Leonardo se pronunciou contendo a risada que o jeito "alto" do amigo queria lhe despertar. Era evidente que o companheiro já havia ingerido mais doses de vinho do que o usualmente esperado para um período anterior à uma cerimônia de casamento. Algumas pessoas ao redor, porém, não se contiveram tanto e riam baixo. O artista respondeu:

     - Tenha calma! O tempo é nosso amigo e te afianço de que estamos todos bem e aqui!

     Fez uma pausa, sorriu matreiramente e continuou:

     - Meus caríssimos iguais, meus convidados. Sabem... Absolutamente nada na minha vida aconteceu de uma maneira normal. E não havia um porquê para meu casamento ser.

     Olhou para Meredite:

     - Amiga... Minha noiva está muito calada, debaixo desse véu... - apontou para o cavalete.

     - Você acha que ela vai me aceitar como esposo amantíssimo, perdoar, saber lidar com todos os meus defeitos, me iluminar em todos os momentos e além disso permitir que eu a ame diante de todos os horizontes, sejam eles azuis ou cinzas, sendo para toda eternidade a musa e dona desse coração?

     A artesã refletiu. Ela estava com as mãos suando:

     - Léo, eu não estou compreendendo.

     - Você é sensível! Apenas diga se eu sou compatível com alguém puro de espírito como ela é.

     - É claro que sim! Você é um homem de grande honra! Você merece todo amor e muita felicidade!

     Meredite disse essas palavras sentindo as forças de seus sentimentos por Leonardo a sacudirem. Terminou a frase com os olhos marejados levemente. Ela não queria deixar aquelas lágrimas de afeição rolarem, para que tal não soasse como despeito diante do enlace do pintor. A verdade, ela sabia, mas não podia deixar crescer, aquela ponta de tristeza por não ser ela a estar se casando com seu amado. Ela tinha que permanecer forte e ser boa como sempre fôra. Precisava ser claridade no caminho daquele casal. Então, se controlou.

     - Já posso erguer o véu! - assentiu o artista.

     Leonardo segurou as pontas do pano deixando que o tecido caísse graciosamente para trás do cavalete, revelando a pintura.

     Todos se movimentaram para observar melhor, e as tintas que viram desfilar mostravam a jovem artesã, sentada ali mesmo entre as flores daquele campo onde predominavam as flores alaranjadas. Um lindo vestido rosa mostrava suas mangas delicadas, esvoaçando junto com a fita branca presa em laço a seu grande e feminino chapéu de palha. Ao fundo, variados pássaros buscavam seu destino sob o céu e outros descansavam sob o Sol. Inúmeros verdes, azuis, amarelos, rosas... E o centro... O centro daquele Universo... O Universo que o reensinara a viver era ela... Meredite!

     Todos deveriam estar estupefatos, porém, passada a expectativa inicial, depois dos primeiros murmúrios surpresos, os entreolhares dispensaram questionamentos e revelações. Estava tudo ali. Tudo certo como água nascente.

     Leonardo tocou de leve a mão de Meredite e com a outra mão ergueu tranquilamente seu rosto, segurando seu queixo com brandura. Seus olhos se encontraram e ela deixou que suas lágrimas, agora plenas de alegria rolassem por sua face até tocar os dedos dele.

     - Você reafirma? Me quer? Me deixa cuidar de você?

     - Pra sempre!

     O artista deixou que um dos expectadores retirasse o quadro do caramanchão para que a cerimônia, com a artesã ali, pudesse transcorrer com mais espaço. Enquanto isso, Leonardo, se dirigindo aos amigos mais próximos falou:

     - Eu nunca escondi que a minha amada é uma verdadeira obra de arte!

     Em seguida, conduziu sua noiva a fim de que se colocassem voltados ao altar. Uma menina de aproximadamente meia década de existência se aproximou da mesa e ali depositou um lindo buquê branco, azul e amarelo, um presente único da natureza, pois, apenas a parte alva era vegetal, repolhudos dentes-de-leão, as cores solar e turquesa que também o compunham, na verdade, eram borboletas que haviam se unido ao místico ramalhete, bela e voluntariamente. O balançar causado naquelas flores pela brisa e delicado movimentar de dúzias de pares de asas fazia daquele momento uma poesia divina. A presença de uma música suave com acordes doces de violino e acordeon beijava os ouvidos de todos, que, mesmo assim puderam escutar nitidamente quando o homem mais vivido pronunciou:

     - Querer Bem é aceitar, apoiar, sorrir, chorar, ir e esperar. O amor nos foi ofertado pelos deuses para reconhecermos nele algo como o suco de nossas uvas. Cada gota é uma, é insubstituível, é um ser. Cada casal transborda então uma alquimia perfeita e sem igual no Universo. Dito isso... Ambos sabendo que já fundiram a essência de seus sentimentos maiores, aceitam eternizar essa magia, defendê-la e expressá-la em seus olhos e atitudes, no silêncio ou diante de um mundo?

     - Sim!!! – Leonardo e Meredite responderam simultaneamente.

     Então a menina e o menino que ali estiveram durante toda a cerimônia também participaram do ritual, ela pegou uma pétala do ramalhete que representava o outono e também uma pétala que representava o verão e o menino retirou uma pétala representante da primavera e outra que simbolizava o inverno e juntos colocaram dentro do cálice enquanto falavam em uníssono:

     - Que assim seja durante todas as faces das terras!

     O casal mais maduro entrelaçou suas mãos e em seguida segurou em conjunto o recipiente que continha suco de uva. Enquanto preenchiam a taça com o líquido falaram juntos:

     - Que exista sempre mais sabor, cor, refresco e afeto em seus caminhos! Que sejam felizes! É o que basta e reina!

     O suco parou de cair sobre as pétalas quando as palavras cessaram. A anciã ergueu o cálice e em seguida ofereceu ao casal. Ambos sustentaram o receptáculo e sorveram a bebida ao mesmo tempo enquanto a dupla mais experiente e a mais jovem declaravam:

     - Estão unidos perante o Universo. Os deuses os aprovam e os amam. Benditas continuem vossas vidas e que suas sementes vivam e cintilem!

     Todos sorriram naquele ambiente... Era claríssimo como todas as fontes de pureza estavam plenas. Leonardo então abriu as duas pequenas caixas. Uma delas guardava a pulseira confeccionada com o rubi. Era linda, Meredite havia superado todas as expectativas... A gema flutuava em um trançado deslumbrante branco rosado. A segunda caixa revelou também uma jóia encantadora. Um radiante fio vermelho abraçava um arredondado quartzo rosa que parecia um coração. A artesã o observou e o pintor vislumbrou a pergunta quieta que desfilava no semblante da artista.

     - Tamara criou! A meu pedido e com toda dedicação ela lhe preparou esse mimo fundamental para nossos votos. - ele sussurrou.

     Meredite lançou um olhar para sua amiga e sorrindo lhe transmitiu, com seu jeito único, todo seu agradecimento e congratulações pela espetacular obra.

     A música aumentou levemente seu tom enquanto eles vestiam as pulseiras um no outro e trocavam mais e secretos votos de amor. Passado esse momento, os recém-casados deram seu primeiro beijo diante de seus convidados. Um misto de aplausos, vivas e elogios se fez ouvir naquele nobre recanto.

     Passados mais alguns instantes, as moças que almejavam também se casar formaram uma espécie de público diante de Meredite. Naquela região era costume se fazer tal coisa, as mulheres casadouras cercavam uma recém-casada na espera de receber presentes ou/e conselhos. A artesã distribuiu cristais para as damas e recomendou que sempre fossem elas mesmas, diante de qualquer situação. E então, depois, lançou um caloroso beijo em direção a todas e soprou docemente o buquê que mais cedo tinha sido depositado perto dela, no altar. As borboletas voaram, e, como ensaiadas, cada uma delas pousou no ombro de uma mulher. As moças, felizes com o resultado daquele evento começaram a se dirigir aos espaços para descanso e refeição. Todos tinham a liberdade para se servir das guloseimas expostas.

     A música assumiu de vez o seu lugar naquela confraternização, o ambiente dançava naturalmente, casais rodopiavam, cavalheiros sustentavam os movimentos de suas bailarinas. Um rio de felicidade fluía e definia seus envolventes cursos. Leonardo e a artesã encontraram seu primeiro bailar rumo à vida a dois, uma animada valsa. A seguir, se lançaram à vigorosos acordes camponeses.

     E com certeza, os recém-casados, assim como todos ali presentes não conseguiram evitar se encantar ao perceber que o rei tinha se postado hábil e enamoradamente como companhia da moça que havia ornado sua fronte com flores. Aquelas horas já previam o que os aldeões, e, quem sabe, até mesmo o monarca, desconheciam... A futura rainha estava ali, era ela... Escolhida no coração da sociedade, eleita por seu saber e humildade. E que ele seria um soberano ainda mais autêntico por se casar por amor.

     A noite chegou, a iluminação foi primorosamente realizada... Além das tochas engenhosamente colocadas, a lua e inúmeras estrelas ilustravam o lugar.

     A artesã e seu amado, depois de receberem os cumprimentos, conversarem com todos e os fazer se sentir à vontade, se afastaram e ficaram olhando o perfil das montanhas. Se abraçaram e beijaram demoradamente. Estavam juntos, eram o futuro... Ele e sua Meredite, então oficialmente, di Leon.


Janeiro de 2021

Autora: Ana Luiza Lettiere Corrêa (Ana Lettiere) http://entrelivrosehistoria.blogspot.com.br

Com Patrícia Lettiere (Patricia Carla Lettiere Corrêa), Paulo Renato Lettiere Corrêa ( http://osabordamente.blogspot.com.br ) e todos os meus inspiradores.

Leonardo e Meredite (Parte 21)

     Leonardo e Meredite (Parte 21)

 

     O ambiente exibia o auge de sua florada. As folhas e pétalas se mostravam resplandecentes. Os delicados caules estavam vivazes e flexíveis, e sua altura parecia ter sido cuidadosamente combinada para a finalidade da celebração... Formava um tapete uniforme que permitia que os convidados, mesmo quando sentados nas pequenas almofadas que estavam postadas diretamente sobre o chão cercando os véus colocados também de forma direta sobre o solo à moda "toalha de piquenique", conseguissem acompanhar a cerimônia e interagir com os outros presentes na festa.

     Cada véu reservava a companhia de oito almofadas e ficava diante de um pequeno caramanchão que tinha sido construído especialmente para o casamento e se encontrava completamente ornamentado com flores. Sob esse espaço havia somente uma pequena mesa coberta com uma cintilante e branca toalha de renda encimada por uma jarra e uma taça de prata, além de um singelo buquê confeccionado com flores locais adicionado um em cada canto da mesa. Cada ramalhete tinha uma determinada flor. Cada flor com uma cor. Cada cor representando uma fase do ano...Vermelha, verão. Rosa, primavera. Amarela, outono. Azul, inverno.

     Diante dessa espécie de altar estava posicionado, no lado dedicado à noiva, um cavalete coberto com cetim verde e um trabalhado tule branco.

     Ao lado dessa construção, uma única e longa mesa presenteada com uma coberta de veludo branco acompanhado de organza rosa se mostrava completamente guarnecida de variados recipientes que disponibilizavam inúmeras iguarias. Todo o conjunto era constituído em refinada porcelana com tema florestal e pastel, assim como os pratos também ali oferecidos para que os convivas fossem servidos no momento da confraternização. Ali também estavam as taças de cristal e talheres de prata.

     Por mais que a mesa já mostrasse delícias em grande número, um outro recinto recentemente erguido um pouco distante do caramanchão era reservado aos ajudantes na arte de fazer e servir os quitutes, e, a julgar pelo perfume das maravilhas que liberava, deixava evidente que as surpresas gastronômicas podiam ser aguardadas em profusão.

     Leonardo guiou todos até bem perto do altar e então pediu que sentassem nas almofadas. O que foi seguido pelos presentes com prontidão... Estavam encantados com a locação. Todo capricho, cada detalhe, era coisa de sonho... Eles viam, sentiam, e gesticulavam, e falavam uns com os outros, com emoção e alegria. O artista estava realizado com a situação, assumiu seu lugar ao lado do cavalete, de frente para todos, em seguida, o homem e a mulher mais honrados e idosos e o menino e a menina mais jovens e criativos da vila se posicionaram atrás da mesa da celebração, bem próximos ao pintor, que sorriu e falou:

     - Pronto, amigos! Agora só precisamos esperar que todos os convidados cheguem!

     Dois quartos de hora passaram a exemplo de dois pontos de luz própria que cruzaram o céu sobre as cabeças que ali se encontravam. O tempo não foi percebido, como aquelas estrelas não foram vistas, tão ansiosos estavam os corações e beijado pela onipotência do Sol o horizonte se fazia. Mas o tempo e aquelas luzes seguiam todos o mesmo destino e traziam bons dias para o reino.

     Uma hora de aguardo se fez e uma meia dúzia de vezes durante esse período, Leonardo fôra perguntado discretamente por alguns dos aldeões se a cerimônia ia demorar para ter início, situação que ele sempre contornava com uma resposta gentil e até mesmo humorada. Porém, em seu íntimo, ele sabia que seus planos dependiam também de uma pessoa para ter pleno sucesso. Ele estava ali, parado, mas seus pensamentos iam a todo instante até Meredite. Ela era sua amiga, precisava estar lá, e ele temia que a fortaleza dela ocultasse uma fragilidade que poderia eclodir na hora errada.

     Ela reagira bem quando ele insinuara amar outra. Mas ele sabia que ela tinha sentimentos puros e românticos por ele, coisa que poderia fazer ela não desejar ver pessoalmente seu enlace com outra mulher. No entanto, ele confiava na maturidade dela, tinha para si a certeza de que ela cumpriria sua promessa de comparecer ao evento.

     Foi isso que aconteceu. Quando Tamara e a artesã surgiram numa das bordas do campo, como se obedecendo um comando da existência, todos, sem exceção, souberam o que fazer, intuíram que a chegada de Meredite tinha algo muito profundo. Os aldeões silenciaram e os músicos começaram a executar uma melodia suave. As amigas seguiram juntas até um certo ponto. Foi então que a vendedora sutilmente ao se ver perto de uma almofada, deu um passo para o lado e se sentou. Meredite sabia que precisava fazer sua parte na cerimônia, então continuou caminhando de forma harmônica aos acordes. Ao se aproximar do caramanchão, viu Leonardo dar três passos em sua direção e recebê-la com um beijo na testa.

     Ela sorriu e lhe entregou uma pequena caixa dourada... Ele a recebeu e colocou sobre o altar, ao lado da taça. Em seguida, pegou outra caixa dourada que estava em seu colete e depositou ao lado da primeira, sobre a mesa. Feito isso, lançou uma piscadela para a artesã, segurou despretensiosamente uma das mãos da amiga e se voltou na direção de todos, conduzindo Meredite a fazer o mesmo. O aroma refrescante daquele ambiente livre compunha delicioso soneto em união com as ondas perfumadas dos chocolates e flores.

     - Tudo perfeito! Podemos começar! Primeiro, temos algo para o nosso príncipe... Por favor, Alteza, se aproxime! - Leonardo estava com o espírito realmente festivo.

     O soberano com uma postura fraterna, simpática por natureza e aguçada por conta daquela ocasião, fez o que o pintor solicitou, sem conseguir evitar porém um pouco da perplexidade causada pelo chamado do amigo. Tão logo o líder a modo de Meredite e Leonardo se voltou para a comunidade, uma camponesa e um camponês, saídos do lado oposto do caramanchão, se aproximaram do príncipe, um seguido do outro, parando ambos próximos a Eduardo. O camponês trazia em suas mãos a coroa real, repleta de rubis, destinada ao nobre por força de sua linhagem sanguínea. E carregado pela camponesa um tradicional arranjo silvestre, uma espécie de coroa confeccionada especialmente para também adornar o soberano. O pintor continuou:

     - Príncipe Eduardo... Aceita a partir de agora ser Rei desses castelos e terras e lutar contra todo tipo de tirania e ataques contra esse nosso lar?

     - Aceito e juro, esteja essa minha mão sobre o fogo ou esse coração diante de uma espada, que assim será. Defenderei a todos, empenhando minha própria vida. - respondeu mostrando-se firme e digno, mantendo a mão direita sobre o seu peito. Em seguida se ajoelhou, e, o camponês postou-se às suas costas erguendo ao máximo seus braços sustendo a coroa e depois lentamente a conduziu até repousá-la na cabeça do soberano, que nesse momento fechou seus olhos e pareceu concentrar-se em um tipo de prece. Foi então que o camponês se afastou discretamente, cedendo seu lugar à camponesa. A moça assumiu a palavra:

     - Rei Eduardo... Oferece a nós, seu povo, a certeza de que será um exemplo de luz, de paz, gratidão e conforto para todos os corações que te elegem voluntariamente como patrono, zelando pelas nossas artes, ofícios e esperanças?

     A voz da camponesa era doce mas com um quê incisivo que não perturbava o regente, ao contrário, ele a respeitava, admirou o jeito com que ela se apresentava. Tal sensação criou na alma de Eduardo a urgência de ser realmente merecedor daquela nova coroa. Emocionado, ele disse, esbanjando dignidade:

     - Sou vosso! Estarei morto antes que lhes falte a esperança. Enquanto meus olhos brilharem sob o céu, os ampararei. Todas as nossas gerações serão belas e prósperas em tudo que se propuserem!

     A jovem, sorrindo, repetiu o gesto do rapaz que a antecedera na cerimônia, ergueu a coroa que estava consigo e a seguir a desceu, depositando sobre a coroa de rubis. As duas peças se encaixaram perfeitamente, formando uma magnífica construção. Os dois camponeses silenciosamente se retiraram do caramanchão e o rei se levantou recebendo os aplausos e vivas de todos que contemplaram a coroação. Will falou:

     - A comemoração está linda! Mas... E o casamento? E a noiva? Está faltando gente fundamental!


Janeiro de 2021

Autora: Ana Luiza Lettiere Corrêa (Ana Lettiere) http://entrelivrosehistoria.blogspot.com.br

Com Patrícia Lettiere (Patricia Carla Lettiere Corrêa), Paulo Renato Lettiere Corrêa ( http://osabordamente.blogspot.com.br ) e todos os meus inspiradores.